pt-ptenes

Toutinegra-de-bigodes

Sylvia cantillans

A toutinegra-de-bigodes é um migrador transahariano que nos visita durante a época reprodutora e migratória. A espécie cria no Sul da Europa ao longo da bacia mediterrânica, e no Noroeste Africano. Trata-se de um passeriforme típico de matos bem desenvolvidos, preferindo aqueles com árvores dispersas.

Foto: José Viana

Foto: José Viana

Em Portugal a espécie cria maioritariamente no Norte e Interior do País, sendo um nidificante bastante comum em Trás-os-Montes e na Beira Baixa. Esta toutinegra é bem mais escassa como nidificante a Sul do Tejo, e encontra-se ausente da faixa litoral durante o mesmo período. Indivíduos migratórios podem ainda ser observados em Abril.

No entanto, durante as migrações a toutinegra-de-bigodes encontra-se praticamente em todo o país. A espécie surge no Sul do país sobretudo durante Março (e por vezes no final de Fevereiro), e espalha-se rapidamente pelo território continental. A migração pós-nupcial ocorre a partir de finais de Agosto até inícios de Novembro, mas o período de maior abundância de migradores acontece sobretudo durante Setembro e inícios de Outubro.

Na península de Sagres a espécie ocorre sobretudo em ambientes arbustivos e vales litorais, sendo que muitos dos indivíduos aqui observados são juvenis, ou adultos com plumagens já mais características da época não-reprodutora.

A toutinegra-de-bigodes pode não ser o passeriforme migrador mais abundante em Sagres, mas é mais uma das muitas espécies de migradores transaharianos que durante o final do Verão e início do Outono enriquecem a biodiversidade local, e uma que é sempre um prazer observar.

Sagres 2014

O Festival de Observação de Aves & Atividades de Natureza vai regressar em 2014, com a sua 5ª edição, nos dias 2 a 5 de outubro.

O programa estará disponível a partir de agosto, mas marque já na sua agenda estes dias para não faltar a este grande evento.

Foto: Nuno Barros

Foto: Nuno Barros

Venha sozinho, com a família ou com amigos, pois há atividades para todos os gostos e um salutar convívio entre os participantes. Temos a certeza que será mais uma edição memorável deste Festival!

Sagres todo o ano

O Festival de Sagres está aí à porta e aproveitamos para convidar todos mais uma vez para o evento. As águias-calçadas devem estar quase a chegar em força!

A migração de aves é um espetáculo que merece ser visto, e é a bandeira desta zona a nível ornitológico, no entanto, Sagres é também um destino interessante para a observação de aves ao longo de todo o ano, com espécies prioritárias nidificantes e residentes.

Foto: Raquel Palheira

Foto: Raquel Palheira

Nas planícies que circundam a vila, mantêm-se ainda ativos muitos campos cerealíferos, pousios e pastagens para gado. Este habitat é de eleição para espécies como o sisão Tetrax tetrax, a petinha-dos-campos Anthus campestris, a calhandrinha Calandrella brachydactyla, ou para o alcaravão Burhinus oedicnemus. Nos matos circundantes nidificam diversos passeriformes interessantes, como a felosa-do-mato Sylvia undata e ou a felosa-tomilheira Sylvia conspicillata.

As falésias costeiras são não apenas o símbolo do Parque Natural do sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, no qual a península de Sagres se insere, mas também constituem uma paisagem agreste e impressionante, e são o habitat de algumas espécies rupícolas. Uma espécie não migradora que merece destaque é a gralha-de-bico-vermelho Pyrrhocorax pyrrhocorax. Esta espécie muito dependente da agricultura tradicional e pastoreio, extinguiu-se localmente em vários pontos do país mas resiste ainda em Sagres, onde pode ser vista em alimentação em campo aberto, ou em passagem entre estes e os seus dormitórios costeiros. Outros habituais habitantes das falésias são o falcão-peregrino Falco peregrinus, o andorinhão-pálido Apus pallidus, o andorinhão-real Apus melba, o melro-azul Monticola solitarius, ou o omnipresente rabirruivo-preto Phoenicurus ochruros.

Sagres vale portanto a pena todo o ano!

Pequenos migradores e actualizações da passagem migratória em Sagres

Foto: Faísca

Foto: Faísca

Setembro chegou e com este a arribada dos pequenos migradores transarianos.

Um pouco mais cedo que os fringilídeos e trigueirões em dispersão (lá para meio de outubro/novembro), o mês de setembro produz um fenómeno interessante: as aves mais comuns que se podem observar são de espécies ausentes ou menos comuns no resto do ano. Aparecem em força os chascos-cinzento Oenanthe oenanthe, as alvéolas-amarelas Motacilla flava, os papa-moscas-pretos Ficedula hypoleuca e as felosas-musicais Phylloscopus trochilus, provavelmente os mais comuns. Outras espécies de passeriformes migradores de fácil observação nesta altura são o rouxinol-pequeno-dos-caniços Acrocephalus scirpaceus, o cartaxo-nortenho Saxicola rubetra, o papa-amoras Sylvia communis, ou o taralhão-cinzento Muscicapa striata. Pode sempre ter a sorte de observar uma espécie mais escassa como o torcicolo Jynx torquilla ou a ameaçada rola-brava Streptopelia turtur. A península de Sagres, pela sua localização e configuração geográfica, é um dos melhores locais do país para observar a migração deste grupo de aves, mas trata-se de um fenómeno nacional, que pode ser observado noutros locais estratégicos. Uma equipa da SPEA esteve esta semana em trabalho de campo na ilha da Berlenga e observou todas as espécies acima referidas

Entretanto, em Sagres continua nesta primeira semana de setembro a passagem de milhafres-pretos Milvus migrans, alguns falcões-abelheiros Pernis apivorus e começam a aparecer águias-calçadas Aquilla pennata, ainda que em pequeno número, tal como os tartaralhões-caçadores Circus pygargus. Há porém a destacar a primeira águia-imperial Aquila adalberti (1 juvenil) e o ocasional falcão-da-raínha Falco eleonorae. Na vertente marinha, destaca-se o elevado número de cagarras Calonectris diomedea e a passagem escassa, embora relativamente regular, de gaivota-de-audouin Larus audouinnii. A SPEA mais uma vez agradece à equipa da STRIX as actualizações migratórias e lembra a todos que, em caso de avistamento de uma raridade, tal deve ser devidamente comunicado ao Comité Português de Raridades em http://www.spea.pt/pt/observar-aves/comite-portugues-raridades/

Cegonha-preta

Ciconia nigra

Em Portugal, a área de nidificação desta espécie emblemática resume-se ao interior do país, praticamente limitada às regiões mais isoladas das bacias hidrográficas do Douro, Tejo e Guadiana.

Foto: José Viana

Foto: José Viana

A localização do ninho, seja em árvores, seja em rocha, normalmente situa-se na proximidade de áreas propícias à alimentação, como linhas de água com pouca corrente, lagoas, charcas ou pequenas albufeiras, obrigatoriamente de baixa profundidade. A dieta desta ave é feita à base de anfíbios, peixes, invertebrados aquáticos e micromamíferos.
Os indivíduos reprodutores começam a instalar-se no final de fevereiro, quando regressam de África. A época de reprodução estende-se até meados de julho, altura em que as crias atingem a idade de voo. Estimam-se 97 a 115 casais para Portugal, cerca de 20% da população ibérica. O número de casais reprodutores apresenta-se estável, contudo tem-se vindo a registar uma diminuição em vários parâmetros desde 1995, entre eles o sucesso reprodutor e a produtividade.

Apesar de algumas cegonhas-pretas permanecerem na Península Ibérica durante o inverno, associadas a açudes ou albufeiras, a população portuguesa é estival. As aves que migram pelo nosso país e pelo Estreito de Gibraltar invernam na África Ocidental, a sul do Saara. A migração pós-nupcial ao longo de Portugal dá-se principalmente a partir de meados de setembro e durante outubro, altura em que é mais fácil de observar esta cegonha em Sagres, quer de forma isolada, quer em pequenos grupos.

Ao contrário da cegonha-branca Ciconia ciconia é uma espécie bastante tímida e extremamente sensível à perturbação humana. É frequente o abandono de ninhos devido à prática de atividades aparentemente inofensivas na proximidade destes, como navegação fluvial, pesca desportiva, pastoreio, desportos motorizados, escalada, realização de percursos pedestres, fotografia da natureza ou observação de aves. Como praticantes destas atividades devemos ter o bom censo de não frequentar as áreas de nidificação ou de alimentação durante o período mais sensível, que vai desde a fase de incubação até aos primeiros tempos de vida das crias.
A perda de habitat devido à construção de barragens tem sido outro relevante fator de ameaça. As albufeiras das barragens inundam vales importantes para a nidificação e extensas áreas de alimentação, para além de impedirem a migração de peixes ao longo dos rios. Só com a criação da barragem do Alqueva foram submersos os ninhos de 10% dos casais portugueses. Quando terminarem as obras e fecharem as comportas da barragem do Sabor a cegonha-preta sofrerá mais uma significativa perda de habitat. É importante repensar a nossa estratégia energética, pois corremos o risco de comprometer seriamente o nosso valioso património natural e o futuro de várias espécies de habitats rupícolas.
Atualmente está classificada como “Vulnerável”, no Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal.

Bibliografia/sites consultados

  • Almeida, J. (coord.), Catry, P., Encarnação, V., Franco, C. Granadeiro, J.P., Lopes, R., Moreira, F., Oliveira, P., Onofre, N., Pacheco, C., Pinto, M., Pitta Groz, M.J., Ramos, J. & Silva, L. 2005. Ciconia nigra Cegonha-preta Pp 179-180 In Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal (Cabral, M.J., Almeida, J., Almeida P.R., Dellinger, T., Ferrand de Almeida, N., Oliveira, M.E., Palmeirim J.M., Queiroz, A.L., Rogado, L. & Santos-Reis, M. (eds.)). Instituto da Conservação da Natureza, Lisboa.
  • Cano Alonso, L.S., Franco, C., Pacheco, C., Reis, S., Rosa, G. & Fernández-García, M. 2006. The breeding population of black stork Ciconia nigra in the Iberian Peninsula. Biota, 7: 15-23.
  • Catry, P., Costa, H., Elias, G. & Matias, R. 2010. Aves de Portugal. Ornitologia do Território Continental. Assírio & Alvim, Lisboa.
  • Equipa Atlas. 2008. Atlas das Aves Nidificantes em Portugal (1999-2005). Instituto da Conservação da Natureza e da Biodiversidade, Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves, Parque Natural da Madeira e Secretaria Regional do Ambiente e do Mar. Assírio & Alvim, Lisboa.
  • http://www.avesdeportugal.info/cicnig.html