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Sagres todo o ano

O Festival de Sagres está aí à porta e aproveitamos para convidar todos mais uma vez para o evento. As águias-calçadas devem estar quase a chegar em força!

A migração de aves é um espetáculo que merece ser visto, e é a bandeira desta zona a nível ornitológico, no entanto, Sagres é também um destino interessante para a observação de aves ao longo de todo o ano, com espécies prioritárias nidificantes e residentes.

Foto: Raquel Palheira

Foto: Raquel Palheira

Nas planícies que circundam a vila, mantêm-se ainda ativos muitos campos cerealíferos, pousios e pastagens para gado. Este habitat é de eleição para espécies como o sisão Tetrax tetrax, a petinha-dos-campos Anthus campestris, a calhandrinha Calandrella brachydactyla, ou para o alcaravão Burhinus oedicnemus. Nos matos circundantes nidificam diversos passeriformes interessantes, como a felosa-do-mato Sylvia undata e ou a felosa-tomilheira Sylvia conspicillata.

As falésias costeiras são não apenas o símbolo do Parque Natural do sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, no qual a península de Sagres se insere, mas também constituem uma paisagem agreste e impressionante, e são o habitat de algumas espécies rupícolas. Uma espécie não migradora que merece destaque é a gralha-de-bico-vermelho Pyrrhocorax pyrrhocorax. Esta espécie muito dependente da agricultura tradicional e pastoreio, extinguiu-se localmente em vários pontos do país mas resiste ainda em Sagres, onde pode ser vista em alimentação em campo aberto, ou em passagem entre estes e os seus dormitórios costeiros. Outros habituais habitantes das falésias são o falcão-peregrino Falco peregrinus, o andorinhão-pálido Apus pallidus, o andorinhão-real Apus melba, o melro-azul Monticola solitarius, ou o omnipresente rabirruivo-preto Phoenicurus ochruros.

Sagres vale portanto a pena todo o ano!

Pequenos migradores e actualizações da passagem migratória em Sagres

Foto: Faísca

Foto: Faísca

Setembro chegou e com este a arribada dos pequenos migradores transarianos.

Um pouco mais cedo que os fringilídeos e trigueirões em dispersão (lá para meio de outubro/novembro), o mês de setembro produz um fenómeno interessante: as aves mais comuns que se podem observar são de espécies ausentes ou menos comuns no resto do ano. Aparecem em força os chascos-cinzento Oenanthe oenanthe, as alvéolas-amarelas Motacilla flava, os papa-moscas-pretos Ficedula hypoleuca e as felosas-musicais Phylloscopus trochilus, provavelmente os mais comuns. Outras espécies de passeriformes migradores de fácil observação nesta altura são o rouxinol-pequeno-dos-caniços Acrocephalus scirpaceus, o cartaxo-nortenho Saxicola rubetra, o papa-amoras Sylvia communis, ou o taralhão-cinzento Muscicapa striata. Pode sempre ter a sorte de observar uma espécie mais escassa como o torcicolo Jynx torquilla ou a ameaçada rola-brava Streptopelia turtur. A península de Sagres, pela sua localização e configuração geográfica, é um dos melhores locais do país para observar a migração deste grupo de aves, mas trata-se de um fenómeno nacional, que pode ser observado noutros locais estratégicos. Uma equipa da SPEA esteve esta semana em trabalho de campo na ilha da Berlenga e observou todas as espécies acima referidas

Entretanto, em Sagres continua nesta primeira semana de setembro a passagem de milhafres-pretos Milvus migrans, alguns falcões-abelheiros Pernis apivorus e começam a aparecer águias-calçadas Aquilla pennata, ainda que em pequeno número, tal como os tartaralhões-caçadores Circus pygargus. Há porém a destacar a primeira águia-imperial Aquila adalberti (1 juvenil) e o ocasional falcão-da-raínha Falco eleonorae. Na vertente marinha, destaca-se o elevado número de cagarras Calonectris diomedea e a passagem escassa, embora relativamente regular, de gaivota-de-audouin Larus audouinnii. A SPEA mais uma vez agradece à equipa da STRIX as actualizações migratórias e lembra a todos que, em caso de avistamento de uma raridade, tal deve ser devidamente comunicado ao Comité Português de Raridades em http://www.spea.pt/pt/observar-aves/comite-portugues-raridades/

Nota de Imprensa “Um Outro Algarve”

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O IV Festival de Observação de Aves de Sagres insere-se no âmbito do projeto PRODER ‘Um Outro Algarve’, promovido pela Vicentina, numa cooperação interterritorial com as associações Terras do Baixo Guadiana e In Loco. Este evento tem como promotores a Vicentina e a Câmara Municipal de Vila do Bispo e conta com a organização da SPEA e da Almargem.

© João Mariano | PURO ALGARVE

© João Mariano | PURO ALGARVE

Um Outro Algarve’ é um projeto PRODER que reúne os GAL ADERE, Interior Algarve Central e Terras do Baixo Guadiana, representados pelas suas entidades gestoras – as três Associações de Desenvolvimento Local do Algarve: Vicentina, In Loco e Terras do Baixo Guadiana, respetivamente. Esta parceria resulta de uma visão estratégica que assenta sobre um trabalho de cooperação, em prol de uma região pequena em área mas grande em potencial, evidenciando a convicção dos seus parceiros na importância da união de esforços para a superação dos desafios que os tempos atuais nos apresentam.

Este é um projeto para o desenvolvimento e estruturação do Turismo de Natureza no Algarve, que surge da necessidade que este destino turístico tem de diversificar a sua oferta, dando um impulso ao seu rejuvenescimento e ao tão importante combate à sazonalidade deste setor, que é o que mais contribui para a economia e empregabilidade da região. O projeto pretende contribuir para o amadurecimento deste tipo de turismo, tornando-o num produto sólido, facilmente percetível e apetecível para o turista. Com estes objetivos em vista, dividiu-se o processo em três níveis:

    1. Organização e Estruturação da Oferta – Criação da marca ‘Puro Algarve’ que distingue os melhores produtos (artesanato, agroalimentares naturais e transformados), serviços (alojamento, restauração e animação turística) e património natural e histórico da região. A oferta será organizada através de rotas temáticas, disponíveis numa plataforma virtual que permitirá ao turista consultar e até adquirir produtos e reservar serviços.
    2. Certificação de Qualidade – Desenvolvimento de um Sistema de Gestão de Qualidade, com o apoio de consultores internacionais, que assegure aos clientes e parceiros a confiança na qualidade e na autenticidade dos produtos e serviços ‘Puro Algarve’.
    3. Promoção Interna e Externa – Produção de diversos suportes de comunicação e marketing; organização de eventos de Turismo de Natureza a nível regional – Festival de Observação de Aves de Sagres, evento no âmbito do surf em Aljezur e de pedestrianismo em Monchique; participação estratégica nos mais importantes eventos de Turismo de Natureza da Europa; organização de press e fam trips.
© João Mariano | PURO ALGARVE

© João Mariano | PURO ALGARVE

Este projeto culminará na ‘Bienal de Turismo de Natureza’, um evento a ocorrer na primavera de 2014 em Aljezur.

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Cegonha-preta

Ciconia nigra

Em Portugal, a área de nidificação desta espécie emblemática resume-se ao interior do país, praticamente limitada às regiões mais isoladas das bacias hidrográficas do Douro, Tejo e Guadiana.

Foto: José Viana

Foto: José Viana

A localização do ninho, seja em árvores, seja em rocha, normalmente situa-se na proximidade de áreas propícias à alimentação, como linhas de água com pouca corrente, lagoas, charcas ou pequenas albufeiras, obrigatoriamente de baixa profundidade. A dieta desta ave é feita à base de anfíbios, peixes, invertebrados aquáticos e micromamíferos.
Os indivíduos reprodutores começam a instalar-se no final de fevereiro, quando regressam de África. A época de reprodução estende-se até meados de julho, altura em que as crias atingem a idade de voo. Estimam-se 97 a 115 casais para Portugal, cerca de 20% da população ibérica. O número de casais reprodutores apresenta-se estável, contudo tem-se vindo a registar uma diminuição em vários parâmetros desde 1995, entre eles o sucesso reprodutor e a produtividade.

Apesar de algumas cegonhas-pretas permanecerem na Península Ibérica durante o inverno, associadas a açudes ou albufeiras, a população portuguesa é estival. As aves que migram pelo nosso país e pelo Estreito de Gibraltar invernam na África Ocidental, a sul do Saara. A migração pós-nupcial ao longo de Portugal dá-se principalmente a partir de meados de setembro e durante outubro, altura em que é mais fácil de observar esta cegonha em Sagres, quer de forma isolada, quer em pequenos grupos.

Ao contrário da cegonha-branca Ciconia ciconia é uma espécie bastante tímida e extremamente sensível à perturbação humana. É frequente o abandono de ninhos devido à prática de atividades aparentemente inofensivas na proximidade destes, como navegação fluvial, pesca desportiva, pastoreio, desportos motorizados, escalada, realização de percursos pedestres, fotografia da natureza ou observação de aves. Como praticantes destas atividades devemos ter o bom censo de não frequentar as áreas de nidificação ou de alimentação durante o período mais sensível, que vai desde a fase de incubação até aos primeiros tempos de vida das crias.
A perda de habitat devido à construção de barragens tem sido outro relevante fator de ameaça. As albufeiras das barragens inundam vales importantes para a nidificação e extensas áreas de alimentação, para além de impedirem a migração de peixes ao longo dos rios. Só com a criação da barragem do Alqueva foram submersos os ninhos de 10% dos casais portugueses. Quando terminarem as obras e fecharem as comportas da barragem do Sabor a cegonha-preta sofrerá mais uma significativa perda de habitat. É importante repensar a nossa estratégia energética, pois corremos o risco de comprometer seriamente o nosso valioso património natural e o futuro de várias espécies de habitats rupícolas.
Atualmente está classificada como “Vulnerável”, no Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal.

Bibliografia/sites consultados

  • Almeida, J. (coord.), Catry, P., Encarnação, V., Franco, C. Granadeiro, J.P., Lopes, R., Moreira, F., Oliveira, P., Onofre, N., Pacheco, C., Pinto, M., Pitta Groz, M.J., Ramos, J. & Silva, L. 2005. Ciconia nigra Cegonha-preta Pp 179-180 In Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal (Cabral, M.J., Almeida, J., Almeida P.R., Dellinger, T., Ferrand de Almeida, N., Oliveira, M.E., Palmeirim J.M., Queiroz, A.L., Rogado, L. & Santos-Reis, M. (eds.)). Instituto da Conservação da Natureza, Lisboa.
  • Cano Alonso, L.S., Franco, C., Pacheco, C., Reis, S., Rosa, G. & Fernández-García, M. 2006. The breeding population of black stork Ciconia nigra in the Iberian Peninsula. Biota, 7: 15-23.
  • Catry, P., Costa, H., Elias, G. & Matias, R. 2010. Aves de Portugal. Ornitologia do Território Continental. Assírio & Alvim, Lisboa.
  • Equipa Atlas. 2008. Atlas das Aves Nidificantes em Portugal (1999-2005). Instituto da Conservação da Natureza e da Biodiversidade, Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves, Parque Natural da Madeira e Secretaria Regional do Ambiente e do Mar. Assírio & Alvim, Lisboa.
  • http://www.avesdeportugal.info/cicnig.html

Águia-calçada

Hieraaetus pennatus

Foto: Bruno Maia

Foto: Bruno Maia

Se há espécies que simbolizam a migração pós-nupcial no nosso país esta é certamente uma delas. É a rapina mais comum na península de Sagres durante este período e ao longo de certos dias, principalmente se os ventos soprarem de leste, podemos chegar a observar algumas centenas de indivíduos. A sua passagem, contudo, é feita maioritariamente no final de setembro e durante a primeira semana de outubro.

As suas áreas de invernada situam-se no centro e sul de África, contudo um pequeno contingente permanece em algumas regiões da Península Ibérica, nomeadamente no Algarve. Durante este período as zonas húmidas e as suas imediações são um importante habitat de alimentação. O regresso dos indivíduos reprodutores faz-se a partir do final de março.

Esta é a mais pequena das verdadeiras águias que ocorrem em Portugal e a sua alimentação baseia-se no consumo de aves de pequeno e médio porte, répteis e pequenos mamíferos. Pode caçar em terrenos agrícolas, matos e pastagens, mas é uma espécie florestal com nidificação essencialmente arborícola no nosso país. Para tal procura montados de sobro ou azinho ou pinhais maduros.

Como reprodutor distribui-se principalmente pelo Alentejo, Ribatejo e Beira Interior, estando praticamente ausente no Algarve e no litoral centro e norte.
A águia-calçada está classificada como “Quase Ameaçada” em Portugal. O principal fator que afeta esta espécie é a destruição de habitat, consequência do abate de florestas maduras ou de fogos florestais. Outras ameaças importantes são a morte por eletrocussão e colisão com linhas elétricas, a proliferação desregrada de parques eólicos, o abate furtivo, o aumento da utilização de agroquímicos e a plantação excessiva de eucaliptos.

Há três particularidades interessantes na plumagem desta águia, uma das quais é o facto de as penas cobrirem abundantemente os seus tarsos. Esta característica esteve na origem do seu nome comum em vários países.

Outra particularidade é a presença de uma pequena mancha branca em cada asa, ao lado do pescoço e visível quando observamos as aves de frente. Vulgarmente conhecidas como “luzes de aterragem”, estas manchas estão presentes na maior parte dos indivíduos e podem ser úteis na identificação da espécie no campo. No entanto, o aspeto mais curioso é a existência de duas plumagens com coloração diferente, idênticas nas partes superiores do corpo, mas fáceis de distinguir quando esta espécie voa sobre nós. Na fase clara é visível um grande contraste entre as negras penas de voo e o branco da parte inferior do corpo. Na fase escura as penas de voo são ligeiramente mais claras, mas a grande diferença nota-se nas penas inferiores, que em vez de brancas são castanhas escuras.

Bibliografia/sites consultados

  • Almeida, J. (coord.), Catry, P., Encarnação, V., Franco, C. Granadeiro, J.P., Lopes, R., Moreira, F., Oliveira, P., Onofre, N., Pacheco, C., Pinto, M., Pitta Groz, M.J., Ramos, J. & Silva, L. 2005. Hieraaetus pennatus Águia-calçada Pp 231-232 In Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal (Cabral, M.J., Almeida, J., Almeida P.R., Dellinger, T., Ferrand de Almeida, N., Oliveira, M.E., Palmeirim J.M., Queiroz, A.L., Rogado, L. & Santos-Reis, M. (eds.)). Instituto da Conservação da Natureza, Lisboa.
  • Catry, P., Costa, H., Elias, G. & Matias, R. 2010. Aves de Portugal. Ornitologia do Território Continental. Assírio & Alvim, Lisboa.
  • Equipa Atlas. 2008. Atlas das Aves Nidificantes em Portugal (1999-2005). Instituto da Conservação da Natureza e da Biodiversidade, Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves, Parque Natural da Madeira e Secretaria Regional do Ambiente e do Mar. Assírio & Alvim, Lisboa.
  • Svensson, L. & Grant, P.J. 2003. Guia de aves – Guia de campo das aves de Portugal e Europa. Assírio & Alvim. Lisboa. 400 pp.
  • http://www.avesdeportugal.info/hiepen.html