A Flora do Cabo de S. Vicente - uma “ave” rara!

É o fim, ou o início, do mundo conhecido. O vento norte e noroeste dominam durante o ano, moldando uma paisagem que se julga pobre, seca e árida.

Caminhemos nela...e entramos numa outra realidade. Descobrimos cores aqui e ali, nas pequenas flores que tentam atrair quem as polinize, e uma diversidade de verdes que desconhecemos até caminhar nesta paisagem! E a cor verde está presente o ano todo, haja água ou haja seca! Temos a época das flores e a época das bagas, cada uma proporcionando que cada planta “viaje” até outras paragens. Assim se reproduzem e se propagam, garantindo a continuidade da espécie!

Botânicos e arquitetos paisagistas vêm dos quatro cantos do mundo à procura de um dos mais bonitos exemplos de jardim mediterrânico. É que, apesar de rodeados pelo atlântico, temos aqui um dos poucos lugares do mundo cuja vegetação e clima são mediterrânicos. Adaptadas à escassez de água, a solos pouco profundos e à salsugem - sal transportado pelo vento que vem do mar - muitas espécies tiveram de se adaptar e modificar. Assim crescem espécies arbóreas com porte de arbusto. E assim se adaptam espécies de forma  a sobreviverem em condições nada fáceis. Por estas razões o Cabo de S. Vicente é, em Portugal, o lugar com maior número de endemismos e uma biodiversidade única. Aqui encontramos exemplares de espécies que são exclusivas da Península Ibérica, de Portugal, do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e, até, apenas de Sagres.

São muitas as plantas aqui existentes que beneficiam das aves para dispersão das suas sementes. É sobretudo no outono, estação em que algumas espécies produzem as suas atraentes bagas, que este ciclo acontece, com diversas aves a utilizar as bagas na sua dieta alimentar. Espécies como o Cartaxo-comum (Saxicola torquatus), a Carriça (Troglodytes troglodytes) ou o Rabirruivo (Phoenicurus ochruros), complementam a sua alimentação com bagas silvestres e sementes.

Uma das espécies que frutifica no início do outono é a Aroeira (Pistaccia lentiscus), cujas bagas, inicialmente vermelhas, se tornam negras. É uma espécie bastante aromática e com muitas utilizações humanas, nomeadamente na produção da pastilha elástica, imagine-se!

Assim, num lugar que parece seco e pobre, a biodiversidade é imensa, as relações são inúmeras e muitas são as espécies de plantas, aves e insetos que dependem umas das outras. Segundo alguns estudos, as aves estão entre os organismos chave para a manutenção de diversas populações de plantas. Por outro lado, os impactos humanos e a fragmentação de habitats estão relacionados com a perda de aves frugívoras nalgumas zonas, devido ao desaparecimento de certas plantas.

A beleza e a vida descobrem-se quando se avança pelos trilhos abertos por outro elemento também aqui importante: o Homem, que desde tempos imemoráveis procurou este cabo, mantendo uma relação sustentável com o meio, até à data!


Conteúdos produzidos por: Walkin´Sagres


ROSÁRIO OLIVEIRA

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